Por que, pai?

O paletó jogado no sofá da luxuosa sala denunciava a chegada do empresário do ramo do automobilístico Tadeu Alencar, 45 anos. Diante de seus olhos, um lance de degraus o separava do quarto de Maria Fernanda, a filha, de 10 anos, que o aguardou a tarde inteira para curtir uma sessão na tela grande.

Parado diante daqueles obstáculos o homem sabia que falhara por mais uma vez para com a sua princesa. A passos lentos, ele foi vencendo degrau por degrau até colocar a mão esquerda na brilhosa maçaneta. No momento em que ia fazer o movimento para entrar no quarto, o som de um choro doído invadiu seus ouvidos e perfurou seu coração.

O soluçar de dor de Maria Fernanda no colo da mãe, a jornalista Fernanda Aguiar, 42 anos, expressava a mais nova decepção com o homem que seria seu ídolo. Sem saber como se aproximar, Tadeu pensou em recuar. Ele começou a fazer o caminho de volta, mas sentiu-se um covarde. Para um empresário respeitado e bem sucedido, tal atitude não era aceitável. Decidido a enfrentar a tempestade emocional familiar, Tadeu, com lágrimas desenhando uma trilha na face clara, aproximou-se de Maria Fernanda.

As Fernandas se entreolharam e depois se posicionaram melhor na cama e aguardaram a mais nova justificativa de Tadeu. O silêncio dominou o ambiente por cinco minutos. Quebrado pelo soluçar dos três, apenas Maria conseguiu pronunciar a frase: Por que, pai? A explicação de um compromisso de negócio urgente e inadiável surgiu novamente. A explosão da menina foi inevitável. Tadeu encantava como homem de negócio, porém desafinava como pai e marido. Os aplausos na empresa e nas inúmeras conferências o afastavam do berço familiar.

Tadeu não conseguia administrar o seu tempo. Dragado pelos compromissos empresariais, buscava ser presente de maneira material. Ele havia esquecido que a mulher e a filha preferiam a simplicidade a toda riqueza sem o amor da presença afetuosa dele. Alguma coisa era necessária ocorrer para brecar aquele sentido desenfreado. Tadeu acordou aos gritos! Sem saber o porquê berrou loucamente! Intrigado, inquieto e completamente perturbado decidiu não ir ao escritório naquele dia. Decidiu viver a família.

Ao acordar e ver seu pai a seu lado, Maria Fernanda fez brotar o mais lindo sorriso dos últimos 12 meses. A esposa Fernanda ficou espantada com aquela decisão. Ela quis saber o que havia acontecido para Tadeu permanecer junto à família. Com um largo sorriso, o marido disse que só queria viver com os dois maiores e melhores amores de sua vida. Ele abraçou as Fernandas e disse que passaria o dia inteiro com elas com direito a tela grande, pipoca e refrigerante! A alegria dominava a casa como há muito tempo não acontecia.

Duas horas depois os três se preparavam para sair de casa no luxuoso carro. O telefone celular toca de forma insistente. Tadeu olha, Fernanda olha e Maria Fernanda olha! Tadeu não quer atender. O chamado é insistente. Mãe e filha pedem para que Tadeu não o atenda. Tadeu tenta resistir, mas não consegue. Ele fala alô.

Tadeu pede desculpas e diz que volta em, no máximo, uma hora. A frustração é total. Tadeu sai com o carro e no cruzamento seguinte, uma carreta avança o sinal. Tadeu não voltou para assistir ao filme na tela grande com a esposa e a filha. Neste Natal, Maria Fernanda e Fernanda vão pensar em como caminhar sem desistir dos seus sonhos. Elas sabem que não podem ter medo do caminho, porque o medo que devem ter é de não caminhar.

Elas sabem também que o trabalho deve ser importante, mas nunca, jamais deve ser mais importante que a pessoa que você ama. Elas sabem ainda que não devem deixar para depois o que podemos fazer agora e que devemos sempre dizer que amamos quem amamos.

É Natal e devemos lembrar que, se morrermos hoje, amanhã a organização já colocará outro profissional na função. Portanto, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. É Natal! Pense nisso!

Crônica: Fernando Fraga, jornalista.