Encontro no Natal!

As luzes da cidade estavam diferentes naquela noite. Tudo parecia mais vivo, mais vibrante no reflexo dos olhos da menina Larissa Camargo. Com seus pequenos passos, ela caminhava pelo asfalto das ruas desertas do centro municipal com seu par de sandálias desgastado. O relógio da catedral marcava meia-noite, momento em que as famílias comemoravam o nascimento de Jesus Cristo com a ceia de Natal, mas Larissa Camargo seguia seu rumo sem destino certo em busca de latas de cerveja e de refrigerante para ganhar “o pão nosso de cada dia”.

Enquanto há fartura na mesa de muitos, Larissa Camargo representa a certeza da fome na mesa de muitos outros, numa data em que mais castiga àqueles que se importam de verdade com o ser humano. Larissa Camargo e seus 12 anos é uma sobrevivente do caos social, de um sistema socioeconômico cruel que ainda exclui mais do que inclui, mas que teima em usar números, às vezes, maquiados para mostrar progresso na luta contra a miséria.

Com um saco preto nas mãos, a menina desconhece a figura do bom velhinho, o famoso Papai Noel. Afinal, ela só conhece o presente que ganhou ontem: uma caixa de papelão, onde havia a forma de uma boneca. “Ah, Larissa ganhou uma boneca do Papai Noel?” - perguntariam os mais inocentes? Claro que não. Para a resistente social só restou a caixa mesmo, a embalagem jogada no lixo. A solução foi aproveitar o papelão da embalagem para faturar uns centavinhos.

Assim é a vida. Não há datas especiais para a geral. Isso é coisa de propaganda, e Larissa, apesar de adolescente, aprendeu a lição desde cedo com a mãe dela, morta ao dormir sob uma marquise, com nada menos do que cinco tiros na cabeça. Larissa sabe que é uma resistente. Ela aprendeu a não acreditar em final feliz. Triste isso, não?! Seria ela uma garota revoltada, drogada, violenta?! Tinha tudo para ser, mas não o é. A essência dela é boa. A garota aposta nela mesma e em Deus. Apesar de não ter família, conseguiu o olhar carinhoso de dona Olga, zeladora de uma escola que a acolhe durante a noite, depois que ela termina a lida de trocar lixo por alguns cascalhos.

Mas é Natal! Mesmo sem grandes perspectivas, Larissa é filha de Deus e merece ser feliz. E quem tem Deus tem tudo. Assim dizia a mãe da menina. Esse aprendizado ela carregava como um mantra. Larissa repetia diariamente essa frase, mesmo nos piores momentos. E foi na noite de Natal que o sinal do Pai Todo Poderosos surgiu no horizonte da garota. Ela estava sentada ao meio-fio quando a estrela guia a iluminou.

Sentada à beira do caminho, Larissa viu um certo alguém se aproximar. Era uma senhora bem vestida que pediu ao motorista para diminuir a velocidade e parar diante da garota. A dona saiu do veículo luxuoso e começou a conversar com Larissa. Foram cerca de trinta minutos de prosa, de uma conversa agradável, que há muito tempo dona Emengarda não levava com outra pessoa. A interação entre as duas foi total. Larissa se sentia acolhida e Emengarda sentia-se respeitada.

A empresária Emengarda Magalhães, 61 anos, era solitária. Havia perdido a família num acidente de carro e passava o Natal sozinha mesmo, apesar dos convites de amigos. De repente, ela resolveu sair um pouco para observar a noite e encontrou Larissa, menina solitária, na noite de Natal. As duas foram se conhecendo aos poucos e hoje moram juntas de maneira totalmente legal. Larissa estuda em um bom colégio e o seu desempenho é ótimo. Emengarda está mais entusiasmada com os negócios e já pensa em preparar Larissa para substitui-la.

A vida é assim: surpreendente! Como nada é por acaso, havia chegado o momento do brilho de duas pessoas especiais se encontrar. Acontecia, então, a obra divina. Assim Larissa começava uma nova trajetória com a companhia de uma Mamãe Noel. Portanto, viva a vida! Feliz Natal!!!

Crônica: Fernando Fraga, jornalista.